sexta-feira, 8 de abril de 2011

AQUEM INTERESSA A FALTA DE PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA HISTÓRICA?

A QUEM INTERESSA A FALTA DE PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA HISTÓRICA? (Ari Pinheiro*)


   Não gosto muito de começar um texto com uma pergunta, mas neste caso ela é pertinente, já que algumas coisas permanecem inexplicáveis neste país abençoado por Deus.
   Um exemplo disso é a relutância do governo em abrir os arquivos da ditadura e mostrar aos brasileiros a verdadeira cara de nossos “heróis”, muitos dos quais são nomes de ruas, praças e escolas. É temerário dizer que tudo faz parte de uma grande teoria da conspiração, mas também é temerário dizer que tal atitude é normal. Não é normal, não é moral; e apesar de parecer legal, tenho dúvidas se a população brasileira não teria pleno direito de conhecer sua história recente, fartamente documentada e trancafiada em arquivos secretos guardados a sete chaves. Aquilo que é liberado para pesquisa é como gotas homeopáticas, fatos que podem servir apenas para ilustrar uma redação do primeiro ano, e isso superfaturando a importância. A quem interessa tudo isso?
   Numa recente visita a um hotel de cavalos em Triunfo/RS, encontrei a sede da antiga Sesmaria da Piedade, onde morou o pai do Bento Gonçalves da Silva, o grande herói da Revolução Farroupilha. Dali foi que sua mãe partiu já nos dias de dar a luz e foi para a sede do município onde os recursos para o parto eram mais avançados. Lá, na sede da Sesmaria da Piedade (que deu origem ao município de Bom Jesus do Triunfo), está apenas uma pequena parte dos alicerces da moradia, preservados mais pela consciência dos moradores do que por qualquer atitude do poder público. Será que em algum momento os mandatários daquelas plagas se deram conta que não fosse por muitos fatos acontecidos sobre aqueles alicerces eles não estariam hoje administrando os milhões de reais que entram todos os anos no cofres da prefeitura? A quem interessa o enterro da memória histórica?
   Fosse no velho mundo o local já teria sido tombado como patrimônio histórico, escavado, reconstituído e preservado; iluminado e transformado em local de visitação. Seria colocado em folheteria adequada, a qual seria mandada para agências de viagem, turismo receptivo, aeroportos e rodoviárias dos municípios de entorno. A visita seria guiada, o que criaria empregos para guias turísticos, geraria receita para os cofres do município; e o principal, enriqueceria a cultura da cidade e do estado, tudo isso a custos baixos, quase irrelevantes diante da importância histórica do local. Já há relatos de visitas da argentina e da europa ao lugar, gente que se interessa pela nossa história. Mas oficialmente, onde estão os registros? Apenas na memória de quem acompanhou as pessoas examinando e tirando fotografias do local. Pena a centenária figueira que adorna a propriedade não possa falar a linguagem dos seres humanos, pois ela sim, é testemunha ocular de muitos fatos acontecidos sob seus galhos. Atravessou gerações e continua firme, descansado sobre suas raízes e estendendo um tapete de sombra fresca para quem quizer tirar uma siesta ou um dedo de prosa numa roda de chimarrão ao entardecer.
   Aquem interessa o enterro da memória histórica? Não consigo responder com exatidão esta pergunta que perturba meus sonhos, mas que tenho sérias suspeitas, lá isso é verdade, como se falava no Rincão do Samburá, terra dos meus avós.


*Do Galpão da Poesia Crioula, escritor e poeta.

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