quinta-feira, 13 de maio de 2010

UM HOMEM QUE CANTA TRISTE – Ari Pinheiro

Quando alguém canta a saudade
Que habita dentro de si

É porque a mente voa por aí

Igual as plumas de verão

Que levemente se vão

Buscando novas paisagens
Querendo as velhas imagens
Que havia em suas paredes
Fontes que matavam a sede
E que o tempo fez miragem...




As novidades são nada
A quem amou com paixão
E escolheu a solidão
Como parceira de estrada
Não tem rumo a caminhada
Tudo é ponto de partida
Se a alma está ferida
E é profundo o ferimento
A lembrança é o fermento
Que azeda o pão da vida...




Não há rosas no jardim
Não há sumo nas maçãs
E o dourado das manhãs
É mortalha encomendada
Para uma morte anunciada
Neste andejar estreito
O que parece não ter jeito
É porque realmente não tem
E é melhor não ser ninguém
Que ter nada dentro do peito...


Quando alguém canta a saudade
Curtido de mágoa e dor
E chora a ausência do amor
Que voou do coração
Ninguém entende a razão
Para tão cruel tormento
Não entendem que o alento
Pra quem anda nesta estrada
Está nos braços da amada
A razão de seu lamento...



De nada valem afagos
E violas enluaradas
Festas e madrugadas
Com gente sorrindo perto
Se na alma há deserto
É longínquo o horizonte
Sobram tristezas aos montes
A própria vida se ausenta
E a alma morre sedenta
Com os pés dentro da fonte!




Quando um homem canta triste
É melhor deixar cantar
Que este canto é um chorar
Que brota do coração
Só ele entende a razão
De soltar o pranto ao léu
Debaixo do seu chapéu
Só ele sabe o que existe
Pois um homem que canta triste
Está mais perto do céu!


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