quarta-feira, 24 de março de 2010

O mistério da graça de Deus

   Coisas incríveis acontecem nos lugares mais inóspitos possível. Eu meditava sobre isso uma noite destas ao descer do monte, solitário, lá pelas três da manhã. Uma garoa fina havia me molhado o corpo por mais de duas horas nas escarpas do Costão do Santinho, mas, mesmo assim eu ainda estava suado. Deus havia falado comigo muito de perto naquela madrugada e eu meditava sobre várias coisas, principalmente sobre aquelas que parecem não ter uma explicação lógica. Ele confortava meu coração fazendo com que as lágrimas lavassem minha alma ferida. Mais uma vez fui aos pés da cruz de Cristo, me derramei, me despojei, me confessei e contei de minhas dores, as quais, aliás, Ele sabe de cor e só Ele tem o lenitivo.


 
   Foi descendo o monte tentando entender as afrontas sofridas nos últimos tempos que me lembrei de uma passagem bíblica muito pregada pelos púlpitos do mundo inteiro. Paulo e Silas na prisão. Eu pensei: Porque Deus permitiu que eles fossem presos? Porque permitiu que fossem surrados daquela maneira? E mais, a maior vergonha para um semita, ficarem despojados de suas vestes, sangrando na masmorra? Eu praticamente inquiria Deus naquele momento, sentindo a leve garoa agora um pouco mais gelada. – Por que senhor, porque permitiste tamanha dor aos teus apóstolos que estavam apenas fazendo a vontade do teu Filho?


 
   Foi então que pude ouvir Sua voz de uma maneira como nunca tinha ouvido antes, não no ar, mas lá dentro da mente, esclarecedora, redentora, acalentadora como só a voz Dele pode ser. Minhas lágrimas se misturaram com a chuva fina e em poucos segundos eu soluçava alto, pondo-me de joelhos na trilha pedregosa me derramei mais uma vez em Sua maravilhosa presença. Sua voz havia sido clara e direta: - Como você acha que a salvação chegaria até a casa daquele carcereiro, como seria ele alcançado; como a salvação alcançaria toda a sua família?


 
   Há um meio para se chegar a qualquer objetivo no universo, e este meio nem sempre segue os padrões estabelecidos pelo ser humano. Minha presença ali naquela trilha, naquela hora da manhã era a prova disso. Há coisas que só entenderemos depois de muito tempo, e há outras que talvez nunca venhamos a entender em plenitude, pois o grande mistério da salvação é que ela brota do sagrado, do inatingível ao espírito humano. John Newton, ainda antes de se tornar cristão era capitão de um navio que transportava escravos, e lá, ouvindo apenas os lamentos dos prisioneiros e o barulho do mar, usou as cinco notas da escala escrava, ou escala musical primitiva(escala pentatônica), como bem conhecem os estudantes de música, e compôs uma das melodias mais amadas no meio cristão, Amazing Grace (Graça Maravilhosa). Há quem acredite que ele compôs a letra e apenas a ajustou a uma melodia escrava já existente. Certamente ele se lembrava dos lamentos da África Ocidental, que perdia filhos, reis e príncipes para serem a principal força de trabalho de uma nação que recém emergia do berço. O certo é que do convés daquele navio, onde só havia dor e sofrimento, brotou a canção que tem tocado corações ao redor do mundo inteiro. Até mesmo Elvis Presley a deixou registrada em sua história musical.


 
   Onde isso nos leva? Que coisas incríveis acontecem em lugares onde o olho humano só enxerga o sofrimento. Deus está lá, e seu poder criativo pode se manifestar a qualquer instante, seja como um vento veemente que abre as cadeias e faz tremer os valentes, ou simplesmente como inspiração para a composição de uma doce canção, com a qual muitas almas serão arrebanhadas ao Seu aprisco. Desde então as minhas orações mudaram. São orações de perdão e agradecimento. Não importa o quanto eu ainda tenha que chorar ou o tamanho do deserto que ainda tenha que passar; aprendi que Ele estará comigo e que sua graça será sempre a inspiração para mais um dia de luta. Oh graça maravilhosa esta de poder crer em um Deus que tudo pode!

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