terça-feira, 3 de junho de 2008

Onde está o pecado?

Assim começa uma reportagem da agência A Folha, de Belém:
“Um engenheiro da Eletrobrás que participava dia 20 de maio, em Altamira (777 km de Belém), de um encontro para discutir a construção de barragens na bacia do rio Xingu foi ferido por um grupo de índios após sua fala em um debate. Paulo Fernando Rezende, coordenador do estudo de inventário da bacia do Xingu, sofreu um corte profundo no braço direito. Ninguém foi preso.”
Num primeiro momento parece apenas mais um desencontro de culturas, mais um infortúnio a ser enfrentado pelos colonizados que neste país sempre capitularam diante dos colonizadores. Sempre não, aqui vale um voto de respeito ao grande Sepé Tiarayú, dos Gauarani, que não capitulou, e, literalmente, deu o sangue em favor de sua etnia. Pois agora nós, que tanto condenamos a ação de portugueses e espanhóis contra o povo das missões, fazemos vistas grossas a uma invasão de privacidade, quase um genocídio que se pretende fazer no norte do país.
O índio, como qualquer criança de primário sabe, estava aqui muito antes de nós, e o fato de ser aculturado, sob nossa ótica, não faz dele um ignorante, muito pelo contrário.Sua cultura simples de silvícola encerra séculos de história antropológica, passada oralmente ao redor das fogueiras e nas festas do Kuarup. Se tivéssemos 1% da sensibilidade indígena, 1% de seu respeito pela natureza; 1% de seu amor pela família; 1% de sua coragem para defender as terras de seus antepassados; 1% de sua tolerância com as diferenças que lhes impomos, talvez não tivéssemos metade dos problemas que nos causamos nos últimos 500 anos. Sim senhores, nossos problemas não foram causados pelos índios, nós os causamos, paulatinamente, em nossa louca e desvairada corrida em busca do progresso e do lucro, em detrimento das coisas do espírito.
A construção das barragens do Xingu vai alagar uma área importante para os caiapós. É seu território de caça, de moradia, lugar onde descansam os corpos de seus antepassados, alicerce de toda a sua história. O corte no braço do engenheiro, mostrado largamente na mídia eletrônica, não diminui o intento branco de infligir ao povo índio mais esta invasão. A terra é dele desde infinitas eras. Nós estamos avançando sobre seus quintais, suas roças, seu orgulho, sua história. Em dado momento somo piores que os espanhóis e portugueses da revolução guaranítica. Naquele tempo não havia ONGs por aqui para ganhar rios de dinheiro do governo e de países estrangeiros para “defender” os direitos indígenas. Até mesmo parte da igreja tem falhado com os nossos irmãos da floresta, pois ao invés de valorizar sua cultura, tenta impor uma religião branca, com costumes brancos, roupas brancas, rezas brancas, mazelas brancas (como se isso fosse possível) e uma falsa humildade, travestida de subserviência.
Quem conhece a cultura indígena sabe que a concepção que o povo índio tem de Deus é superior a muitos pseudo-cristãos, que abraçam “irmãos” no culto de domingo e passam cheque sem fundos na segunda-feira, num tremendo banho de hipocrisia.
Podemos estar precisando de mais energia elétrica, mas a culpa não é dos índios. Podemos requerer o direito de fazer as barragens, mas a pergunta é a seguinte: Estamos prontos para o julgamento das gerações futuras? O braço do engenheiro deve estar doendo muito, mas não deve estar mais machucado que o orgulho caiapó. O corte vai cicatrizar e tornar-se, em pouco tempo, mais uma lembrança de um dia infeliz. Será que a nação caiapó também não será apenas uma lembrança em pouco tempo?
Só para refletir: Onde está o pecado? No índio que vive nu desde tempos imemoriais sem problema algum, ou no pregador que não resiste à índia nua?
Pr. Ari Pinheiro

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