quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

TESTAMENTO


Dias destes eu me peguei pensando se, por um acaso, eu fosse indicado para deixar uma carta-testamento para três ou quatro gerações à frente. Preocupei-me.
Deixar o quê de herança para daqui a um século ou dois? Lembrei do arroio onde eu pescava jundiás e traíras a apenas 25 anos, no centro de Santa Maria. Este não posso deixar de herança, pois hoje ele é apenas uma imensa cloaca negra cortando a cidade, onde nem sapos sobrevivem.


A sanga de minha infância, lá em Jaguari, conhecida com a Sanga dos Marchiori também já definha entre os vilarejos que nasceram em sua volta. Outra herança que não duraria até daqui a cem anos.



As praias do Rio Jacuí, hoje já são trinta a menos. Haverá alguma daqui a cem anos? Chego a duvidar que o próprio rio resista tanto tempo, tão grande é o ataque que sofre diariamente, recebendo milhares de litros de esgoto não tratado, desde seu nascimento até a foz. Não vou nem falar no areeiros, pois alguém pode pensar que é matéria encomendada, e aí, a retaliação é mais certa que punhalada de canhoto.



Pensei que poderia deixar algo diferente, já que a natureza parece caminhar para a extinção em um século ou dois; pensei em deixar a Hino Nacional Brasileiro. Só pensei, e rapidamente me arrependi. O Riacho do Ypiranga há muito não tem margens plácidas; o povo heróico e bravo só existe na utopia poética de quem escreveu o hino, o brado retumbante que eu escuto são os tiroteios da favela, os gritos dos sem-terra, sem-teto, descamisados, descalços e etc.



O brado retumbante que ouço é o das hordas de injustiçados, maltratados e usurpados brasileiros que acreditaram em frases como “Cinqüenta anos em cinco”; “Brasil, ame-o ou deixe-o”; “Tortura nunca mais”; “Plante que o João garante!” ou então a da moda atual: “Nunca na história deste país...”. Sem falar que “deitado em berço esplêndido” só estão os que têm mandato garantido em Brasília. Pensando bem, o Hino Nacional também não é uma boa escolha.



Não fosse eu um otimista convicto estaria deprimido neste momento, mas teimo em acreditar que um dia os brasileiros se darão conta do presente de Deus que é este país. Criarão programas nacionais de incentivo a despoluição de rios e riachos, replantarão as florestas depredadas e criarão escolas especializadas em formar cidadãos de caráter ilibado (leia-se com vergonha na cara), antes de ensinar a distância entre o sol e a lua. Teimo em crer que um dia poderemos confiar plenamente naqueles que se dizem “Homens de Deus”, e que eles ocuparão os altares para formar um povo com caráter cristão, e não uma multidão de fardados que ajuda a sustentar a desordem vigente.



É isso! Minha carta testamento é meu otimismo, para que nunca se perca a esperança de um mundo renascendo das cinzas. Pelo menos até a volta de Cristo, porque depois disso, é outra história! Em tempo: Respeito ao meio-ambiente devia ser matéria de Escola Dominical, na minha modesta opinião, é claro.

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