quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

UM NOVO DIA PARA JAIRO



Coloco aqui este sermão porque dá uma visão moderna do drama de Jairo, ante suas convicções e posição que ocupava na sociedade da época. Explica em miúdos o que muita gente ignora sobre como pregar para alguém que ocupa posição destacada na sociedade. Não é por acaso que o Pr Allejandro é um dos pregadores mais requisitados deste século.
Pr. Ari Pinheiro





Pelo Pr. Allejandro Bullón

"Por que, às vezes, as orações demoram a ser respondidas? Por que, em algumas circunstâncias da vida, Deus parece insensível às nossas necessidades? Existe algo que precisamos aprender por trás das longas horas de espera e da aparente indiferença de Deus?
"Tendo Jesus voltado no barco, para o outro lado, afluiu para Ele grande multidão; e Ele estava junto do mar. Eis que se chega a Ele um dos principais da sinagoga, por nome Jairo,e,vendo-o, prostra-se aos seus pés, e insistentemente lhe suplica: Minha filhinha está à morte; vem, impõe as mãos sobre ela, para que seja salva, e viverá. E Jesus foi com ele. Grande multidão o seguia,comprimindo-o... Falava ele ainda quando, chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, a quem disseram: Tua filha já morreu; por que ainda incomodas o Mestre? Mas Jesus, sem acudir a tais palavras, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente" (Marcos 5:21 a 24 e 35, 36).
Esse texto apresenta Jairo, chefe da Sinagoga. Homem culto, poderoso e com muitos títulos universitários. Jairo era um profissional inteligente, famoso, admirado e rico.
Aparentemente tinha tudo que o homem precisa para ser feliz. Qualquer um que olhasse Jairo andando na rua, pensaria que ele era muito feliz. Roupas finas, carro do ano, uma casa no melhor bairro da cidade, um bom emprego, uma empresa próspera, uma boa família. respeito, consideração, nome. Jairo era o protótipo do homem de sucesso. Mas Jairo não era feliz. Havia algo que o incomodava e machucava seu coração.
Nossa sociedade nos ensinou a esconder nossos verdadeiros sentimentos. Podemos estar vivendo um drama terrível, mas não temos coragem de contá-lo a ninguém.
Nada está bom. Estamos desempregados; nosso lar está caindo aos pedaços; nossa empresa está falindo; nosso filho está mergulhado na promiscuidade, nas drogas... Mas quando alguém nos pergunta:
- Tudo bem?
Levantamos a mão e respondemos:
- Tudo bom!
Mas ele tinha um problema terrível. Por trás das roupas finas, da aparência bonita, do nome poderoso, do dinheiro e da sua mansão, Jairo trazia um problema: uma filha enferma.
Como ele tinha dinheiro, ele havia procurado os melhores médicos, os melhores especialistas, os melhores hospitais; até que um dia um médico disse:
- Jairo, por favor, não gaste mais dinheiro. A sua filha não tem mais cura; está condenada à morte. Ela tem somente dois meses de vida.
Se hoje um médico viesse a mim e dissesse:
- Sua mãe está condenada à morte.
Eu ficaria muito triste, mas com certeza, me conformaria. Porque, afinal de contas, a minha mãe, com quase 70 anos, já viveu tudo que tinha direito de viver. Mas se esta noite um médico viesse, e me dissesse:
- Pastor, esse seu garoto bonito de 18 anos só viverá mais 2 meses.
Sinceramente não sei se aceitaria com a mesma resignação.
Você perdeu um filho que tinha apenas 15 anos? Perdeu a sua esposa? Perdeu seu marido? Você tem um ente querido à beira da morte? Um ente querido que está no hospital desenganado pela ciência médica? Então você talvez possa compreender como Jairo se sentia
Meu amigo, eu não posso entender o seu problema. Por mais que eu me esforce em fazê-lo, não posso. Somente Deus pode entendê-lo.
O famoso chefe da sinagoga voltou triste para casa. Sua filha não tinha mais cura. Mas, naqueles dias Jesus andava por aquelas terras e Jairo ouviu dizer que leprosos, com a carne caindo aos pedaços, eram levados a Jesus e eram curados. Cegos eram levados a Jesus e eles enxergavam. Paralíticos, que tinham vivido a vida toda rastejando no chão, eram levados a Jesus e imediatamente começavam a andar. Prostitutas eram levadas a Jesus; Ele as olhava com amor, lhes restaurava e lhes devolvia a dignidade. Ladrões, marginais, eram levados a Jesus; Ele acreditava neles e os transformava.
Jairo, em seu coração começou a acalentar a esperança: "talvez Jesus consiga fazer alguma coisa por minha filha". Só que Jairo tinha um problema. Sabe qual era? Ele era culto, inteligente, rico, poderoso e famoso. Você pode dizer:
Pastor, isso não é problema.
Não deveria ser, mas infelizmente tudo isso às vezes torna-se um problema. Explico: Jairo precisava que Jesus operasse um milagre na vida de sua filha, mas não podia correr atrás de Jesus. Sabe por quê? Os que seguiam a Jesus eram prostitutas, marginais, ladrões, cegos, paralíticos, leprosos, bêbados, viciados, homossexuais, gente perdida, gente que não prestava, gente rejeitada pela sociedade, gente pobre, miserável, inculta, gente que só podia ter nesta vida um pouco de esperança. Eram esses os que corriam atrás de Jesus. Como ele, o grande Jairo, o doutor em teologia, o grande empresário, o líder político e religioso, famoso, cujo nome aparecia nas manchetes dos jornais, rico, inteligente, podia se juntar com a plebe, procurando ajuda?
Ah! meu amigo, esse também pode ser o problema de muita gente hoje. Tudo bem que pessoas simples procurem Jesus, mas um doutor em filosofia? Que a plebe siga a Jesus, tudo bem, mas como um homem rico e poderoso pode acreditar que Jesus seja capaz de fazer um milagre em sua vida? Esta é a tragédia do poder e do dinheiro.
Existem hoje homens vazios, que choram e sangram por dentro, mas não têm coragem de pedir ajuda. Ficam noites inteiras se virando na cama de um lado para outro sem dormir. Precisam de Jesus como qualquer pobre ser humano, mas temem o que os outros vão dizer.
Um dia, você e eu teremos que tirar a máscara de homens duros, que nunca choram, que nunca se emocionam, que só seguem a razão.
Você se considera um homem duro? "Não sinto nada", pode estar pensando, mas lá no fundo está sentindo; as lágrimas estão querendo cair de seus olhos, mas nossa sociedade nos ensinou a colocar uma máscara de dureza, de insensibilidade. Queremos mostrar que somos fortes para que ninguém nos machuque. Só que por dentro vivemos machucados. Precisamos de auxílio, de ajuda, de salvação, mas não temos coragem de pedir ajuda.
Pobre Jairo, enquanto pôde, resistiu; enquanto as forças conseguiram, rejeitou. Mas no momento em que sua filhinha começou a entrar em coma, ele não agüentou mais e deixou de lado o seu orgulho, seu poder, sua fama e sua cultura. Sua filha estava morrendo. Não podia mais ficar na insensibilidade; tinha que entregar-se; tinha que render-se; tinha que se humilhar aos pés do único capaz de resolver os problemas humanos. O texto bíblico diz: "E rogava-lhe muito, dizendo: Minha filha está moribunda, rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare, e viva" (Marcos 5:23).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

TESTAMENTO


Dias destes eu me peguei pensando se, por um acaso, eu fosse indicado para deixar uma carta-testamento para três ou quatro gerações à frente. Preocupei-me.
Deixar o quê de herança para daqui a um século ou dois? Lembrei do arroio onde eu pescava jundiás e traíras a apenas 25 anos, no centro de Santa Maria. Este não posso deixar de herança, pois hoje ele é apenas uma imensa cloaca negra cortando a cidade, onde nem sapos sobrevivem.


A sanga de minha infância, lá em Jaguari, conhecida com a Sanga dos Marchiori também já definha entre os vilarejos que nasceram em sua volta. Outra herança que não duraria até daqui a cem anos.



As praias do Rio Jacuí, hoje já são trinta a menos. Haverá alguma daqui a cem anos? Chego a duvidar que o próprio rio resista tanto tempo, tão grande é o ataque que sofre diariamente, recebendo milhares de litros de esgoto não tratado, desde seu nascimento até a foz. Não vou nem falar no areeiros, pois alguém pode pensar que é matéria encomendada, e aí, a retaliação é mais certa que punhalada de canhoto.



Pensei que poderia deixar algo diferente, já que a natureza parece caminhar para a extinção em um século ou dois; pensei em deixar a Hino Nacional Brasileiro. Só pensei, e rapidamente me arrependi. O Riacho do Ypiranga há muito não tem margens plácidas; o povo heróico e bravo só existe na utopia poética de quem escreveu o hino, o brado retumbante que eu escuto são os tiroteios da favela, os gritos dos sem-terra, sem-teto, descamisados, descalços e etc.



O brado retumbante que ouço é o das hordas de injustiçados, maltratados e usurpados brasileiros que acreditaram em frases como “Cinqüenta anos em cinco”; “Brasil, ame-o ou deixe-o”; “Tortura nunca mais”; “Plante que o João garante!” ou então a da moda atual: “Nunca na história deste país...”. Sem falar que “deitado em berço esplêndido” só estão os que têm mandato garantido em Brasília. Pensando bem, o Hino Nacional também não é uma boa escolha.



Não fosse eu um otimista convicto estaria deprimido neste momento, mas teimo em acreditar que um dia os brasileiros se darão conta do presente de Deus que é este país. Criarão programas nacionais de incentivo a despoluição de rios e riachos, replantarão as florestas depredadas e criarão escolas especializadas em formar cidadãos de caráter ilibado (leia-se com vergonha na cara), antes de ensinar a distância entre o sol e a lua. Teimo em crer que um dia poderemos confiar plenamente naqueles que se dizem “Homens de Deus”, e que eles ocuparão os altares para formar um povo com caráter cristão, e não uma multidão de fardados que ajuda a sustentar a desordem vigente.



É isso! Minha carta testamento é meu otimismo, para que nunca se perca a esperança de um mundo renascendo das cinzas. Pelo menos até a volta de Cristo, porque depois disso, é outra história! Em tempo: Respeito ao meio-ambiente devia ser matéria de Escola Dominical, na minha modesta opinião, é claro.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Tenho problemas com hipócritas...

Pr. Ari Pinheiro

E parece que por não gostar muito de fariseus, vez por outra eles se atravessam no meu caminho.
É verdade que tenho que me converter cada dia mais, pois a Bíblia manda amar os meus inimigos, quanto mais essa raça de fingidores que assola o terceiro milênio. São tapinhas nas costas, meios sorrisos, um pouco de puxasaquismo e punhais afiados. Punhais disfarçados de espanadores, de plumas e outros objetos macios, mas que na hora do adeus, como se diz lá na fronteira, "cortam mais que pensamento de china despeitada."


A estas alturas alguns fariseus hipócritas devem estar pensando ou até dizendo por aí que estas não são palavras dignas de um texto escrito por um pastor. Este é o problema de muitos bajuladores de plantão. Falam uma linguagem empolada e ininteligível, própria dos enroladores, que prendem a atenção das pessoas mais pelas asneiras do que pela boa fluência da fala ou do texto que escrevem. Não vivem o que pregam e não pregam o que vivem, são sepulcros caiados que só servem para empestear o ambiente onde estão dispostos, como feridas brancas escondendo gangrenas mortais sob uma falsa cicatrização.


Tenho problemas com esta gente, porque a alergia que se propaga entre treva e luz faz com que estas duas facções nunca se misturem, já que seus produtos finais são distintos e não satisfazem os mesmos paladares. A hipocrisia tomou conta dos altares, dos púlpitos, dos palcos, das instituições, dos lares, enfim; é um tipo de câncer que espalhou suas metástases por todo o tecido social e prepara o ritual para uma morte anunciada.


Só existe uma vacina capaz de parar o avanço desta chaga mortal, é colocar mais de Deus no coração da humanidade, e, em derradeira instância, preparar um azorrague para expulsar os cambistas da esplanada do templo, antes que ele se transforme num banco ou outra empresa qualquer de fomento.


Talvez você não tenha gostado da minha linguagem, mas ela é autêntica e não precisa de retoques para que seja entendida. É meu discurso e minha prática, no púlpito, na rua, na pescaria ou na fila do banco. Uma cara só para um homem só, com defeitos e virtudes, porém verdadeiro em suas lutas e anseios.


Tenho problemas com hipócritas, por isso tenho que descer na olaria de Deus para que meu vaso seja refeito. Preciso aprender que os fariseus também merecem a salvação, mas que dá uma vontade, isso não se pode negar...


Hoje eu entendo porque Jesus perdeu a paciência com essa raça...